O pão nosso de cada dia

O pão nosso de cada dia

está nas ruas esburacadas

onde se escangalha todo o carro,

está nas calçadas quebradas,

onde se tropeça atabalhoadamente;

no sacolejo ensimesmado do metrô

onde se pensa a morte da bezerra,

na carência fodida de todo amor

quando retorna a falta da mãe,

na ausência completa de uma boa foda,

quando se fica inteiramente na mão,

no infrene e estonteante giro da roda

que te deixa muito confuso, ou sem fuso;

na batalha irremissível da labuta

que a mais-valia prostitui,

no sorriso constrangedor da puta

que te chupa enquanto pede carinho;

está no suor do esforço do parto

quando se indaga – pra que mais gente, meu Deus?

ou no prenúncio iminente do infarto

quando pouco restará a ser feito;

está na voz endemoniada do Pastor

enquanto induz o descarrego,

inscreve-se na hipocrisia do louvor

que o padre impele ao seu sermão;

está na mentira escarrada da publicidade

que promove o que não interessa,

está em se perder por inteiro na cidade

quando se retarda a volta pra casa;

na impossibilidade de encontrar o norte,

pois não há bússola que dê jeito

para o que se lamenta como falta de sorte

mas é apenas vazio de desejo.

oh Vida, pão da Morte!

Rodada 24 Invertida

Texto: Guilherme Preger
Imagem: Diego Kern Lopes

4 comentários

  1. Muito obrigado pelo texto Guilherme. Quando li veio direto na cabeça o som de uma banda que gosto muito, Mad Season (bem novinha por sinal). Daí foi só juntar os pontinhos. E Gilson, velho, adorei esse novo layout. Pô, e com essa barra de compartilhamento tudo fica mais fácil. Abração pra todos.

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  2. O texto tem vários pontos altos – a ausência da foda, o parto de mais um – e, principalmente, o final. Pra ficar perfeito – daí é opinião minha e doxa sempre vale menos do que qualquer outra coisa e pode ser amassada e jogada no lixo ou então plastificada acima da cabeça do médico – só faltaria ser escrito todo seguidão, em layout de prosa. Tá muito bom e casou benzão com a imagem! Morte completa a vida tanto quanto a imagem e o texto se complementam. Parabéns aos dois!

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  3. Achei muito bom! XD É bem ácido, e uma puta crítica a esse mundo virado… Mas discordo da Maíra quanto à forma. Gostei da escolha pela poesia. Acho a cadência poética desse texto rápida, quase prosaica mesmo. Dá a ideia de uma oração, no que tange à forma, só que em vez de pedir a graça, inverte tudo e vomita a desgraça! =D

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