Avô

A fome me fez advogado
Não me faço de rogado.
E na labuta por melhores tetos
Também me trouxe netos.

E não me jogues na face usura
Pois também tenho candura.
E quando enxergas nos meus olhos brilhos
Vês os filhos dos meus filhos.

O tempo me fez predatório
Fiz da alcova um escritório
Mas quando o assunto é sentimentos
Só me vêm os rebentos.

Agora veja o senhor
A justiça de meu pendor:
Depois de açoites profanos
A vida brinda os decanos.

O prazer que me resta
Além da vespertina sesta
Mora nos indulgentes acenos
Com que me recebem os pequenos.

E quando me pedem um brinquedo
Ou revistas sem enredo
Conto minhas próprias estórias
Ser avô é um livro de memórias.

Rodada 19

Fotografia: Guilherme Quaresma
Poema: David Cohen

7 comentários

  1. a foto tem realmente um aspecto de familiaridade, como uma cena de bairro. ficou ótimo este contraste entre cores e P&B. acho q o txt \”ilustrou\” a foto perfeitamente com a simplicidade da condição humana resumida no curto título desta obra e nos versos tão singelos…

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  2. Renatinho e meu xará, obrigado pelo elogios à foto! 🙂 Na verdade, tenho que agradecer ao David também pelo belíssimo poema criado com base nela, no qual ele acabou tirando elementos dela que eu nem imaginei destacar. A minha ideia ao fazer o contraste cor/p&b era siplesmente destacar em cor o que havia de papel na cena: as revistas da banca e o jornal e o envelope nas mãos daquele senhor.Preger, meu caro, por incrível que pareça, a cena que parece tranquila foi retratada na avenida mais movimentada de Buenos Aires, quando estava \”flanando\” por lá, a passeio, com a máquina a tiracolo! 🙂 Abraços a todos!

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