O Desfiar da Tarde

Desfazer a tarde
como se destrança uma tela
ou como se desfia um tecido.

A tarde, o que fazer dela?
Seu único erro foi ter sido
e foi. A tarde é tão frágil,
feita de matéria imponderável,
onde ela se sustentaria
se não nos arames de luz do dia
ou nas ondulações de tênue aragem?

A tarde não tem voz própria,
incapaz de dizer sua história,
ela não pode se defender da voragem
irreversível do esquecimento.

A tarde não teve testemunha
e seu desaparecimento
não pode ser evitado à unha.

A tarde, seria preciso amá-la
para guardar seu sopro sem fala
mas nenhum afeto tem mãos tão estreitas
e inútil é tentar o enlace
de sua diáfana e fugidia carne.
Desnecessário será desfazê-la,
pois a tarde vai embora sem alarde
e nem deixa um rastro, um traço.

A tarde foi um tempo, agora é espaço
que, vazio, apenas se trai, tanto arde.

Rodada 12 Invertida

Texto: Guilherme Preger
Imagem: Maria Matina

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