Funcionário do mês

– Empresa com mais de 100 pessoas tem cota pra deficiente, você sabia?

– E quantas trabalham lá contigo?

– 99. Pra não ter que contratar dois infelizes, aposto.

– O pessoal lá é ruim desse jeito?

– Ih, você não imagina. Outro dia, mandaram tirar a maquina de café do corredor porque se queimar alguém, a empresa tem que pagar indenização e o caramba!

– Nossa.

– Trocaram as escadas por escorrega. Menos risco. Lápis? Só virado com a ponta pra baixo. Já ouviu falar na história do cara que ficou paraplégico com um lápis que entrou no pescoço, enquanto ele corria pela sala pra terminar um relatório?

– Os de boa intenção são os primeiros a se ferrar.

– Sempre.

– Sempre.

– Mas o que eu quero te dizer é que apareceu um sujeito lá na firma.

– Aham.

– O RH precisando contratar mais dois pra área de informática, lembrou da questão das cotas e logo apareceu o currículo desse cara.

– É surdo-mudo?

– Não.

– Cadeira de rodas?

– Não, não. Ele disse que tinha alguma deficiência visual.

– O nome disso é cego.

– O cara tinha quatro olhos, rapaz.

– Agora tem cota pra míope também? Essa é nova.

– Não, quatro mesmo. Um, dois, três, quatro.

– Confesso que estou chocado.

– Ele tinha só curso técnico, pouca experiência em empresa, mas logo quiseram o cara na contabilidade. Pô, quatro olhos, né? Não passa um calculozinho errado por um cidadão desses. Promoveram o cara a gerente em uma semana e logo depois a diretor do departamento. Rolou uma rixa interna braba, mas talento é talento, fazer o quê? O pessoal da portaria ficou maluco, um dos seguranças disse que o quatro olhos era vizinho dele e que quando indicou o currículo do cara, era pra ficar tomando conta da entrada e da saída da empresa, não ia ter gente melhor pra função. Ah, meu amigo, bobeou, já era. O Marketing veio com um discurso de que ninguém iria enxergar melhor as necessidades do cliente do que o novo funcionário e começou a passar uns trabalhos extras pro homem. O jurídico chegou a subornar uns três ou quatro pra ter o quatro olhos lendo os contratos lá. Virou herói.

– Pelo visto, então, o quatro olhos agora é o presidente mundial da empresa; Não! Melhor! A empresa agora se chama “Quatro Olhos Corporation” em homenagem a este grande líder. Acertei? Que foi, tá chorando?

– Não brinca, não, cara. O quatrinho era meu parceiro, teve um infarto fulminante, em trinta dias, logo quando ia virar funcionário do mês. O médico disse que ele não agüentou a pressão, que deve ter sido muito explorado.

– Pessoal é olho grande, né?

– Ô, se é!

Rodada 11

Texto: Ilana Reznik
Imagem: Fabiano Gummo

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