Além do horizonte (1)

Além do horizonte existe um lugar, mas é bom estar neste. Aqui onde a imprescindível ignorância nos faz aprender o valor das coisas e a gravidade dá ao corpo sua necessária solidez. O corpo, sua massa como uma intumescência na superfície do real. E se, mais tarde, nos vemos sós, e se, mais tarde, sentimos a dor de perder, há ainda esta carne amorfa com suas membranas e mucosas por onde passa uma corrente furtiva de vento que acaricia suas linhas frágeis e fugidias. Com esta carne se sua, se urina, se defeca. Ela trabalha. Vaza de seus poros uma umidade que é prova do calor de sua máquina. E se ela se dispersa, e se ela se reparte em inúmeras camadas, e se, mais tarde, sentimos falta do que se foi por aí, então conhecemos a incerteza, dádiva daquilo que, inevitavelmente, se espalhou pela nervura espinhosa do mundo.

Rodada 10

Vídeo: Julio Rodrigues
Texto: Guilherme Preger e Julio Rodrigues

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