Além do Auto-retrato

Ultimamente parecia querer escapar de si mesma. O mindinho esquerdo apresentava uma pequena protuberância em sua face externa, como uma rota alternativa para a fuga; os olhos em desalinho demonstravam desejar estar em qualquer outro lugar; os mamilos apontavam cada um para uma direção, prontos para se ejetarem dali.

Aquela esfera, embora a deformasse ao aprisionar sua imagem, ajuntava-a, forçava-a contra si própria, obrigando-a a conviver consigo mesma. Presa em si. Era do que precisava. A eterna fuga do eu, os pensamentos sempre induzidos pelos estímulos externos, o dia inteiro em atividades, a interdição ao nada fazer necessário ao auto-enfrentamento. Mesmo na hora de dormir, televisão ou uma leitura se impõe, para evitar o silêncio entre o dia e os sonhos. Precisava enfrentar o medo de si, mas era incapaz de parar. Contemplar-se. Ouvir-se. Num primeiro momento olhou para sua imagem refletida na esfera. Num segundo instante viu-se dentro dela. Por fim, projetou-se para seu interior. Prisioneira naquela redoma não tinha mais o que fazer senão escutar o tal silêncio, imediatamente preenchido pelos seus traumas, complexos, arquétipos, que se manifestavam sucessivamente. Estava indefesa, nua, irremediavelmente exposta a si própria, a mais terrível juíza e carrasca. Sem escapatória, foi obrigada a dialogar com os monstros que a tinham como hospedeira. Só saiu da redoma após domá-los, quando, cessada a ameaça que vinha do âmago, não quis mais fugir dela mesma. Já do lado de fora, olhou uma última vez para a redoma e viu um simples reflexo. Recolocou-a sobre a prateleira em que sempre estivera, como simples objeto decorativo, leu por alguns minutos seu livro de xilogravura e litografia, fechou-o, sentou-se em uma poltrona próxima à janela e permaneceu em plácido silêncio nas horas seguintes.

Rodada 05

Imagem: Marcelo Damm
Texto: Renato Amado

7 comentários

  1. Renato, adorei o texto com seu conteúdo existencial sobre o encontro de alguem com o seu próprio objeto de pesquisa, isto é, consigo mesmo. Plenamente inspirado na imagem com a interessante e super bem feita versão do Marcelo sobre a obra de Escher, como disse o André, e que eu não conhecia mas pesquisei.

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  2. Renato adorei o texto, seu tempo tão arrastado em tão poucas linhas, domínio de ritmo e das palavras, um instante que vale por uma vida.A imagem é bastante instigante, carregada de iconografia pop, além da enorme carga de virtualidade, perfeito para gerar um texto como este. Parabéns aos dois.

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  3. era difícil dizer quem veio primeiro, a imagem ou o texto tal o casamento entre os dois. é até agora a dupla mais combinada de todo o site. eu achava q era rodada invertida e q o txt veio antes, mas agora o marcelo nos esclarece q a imagem veio antes. tanto faz. gostei muito da delicadeza do txt e da inventividade da imagem, tradução pop kitch de meu artista gráfico preferido, Erscher. parabéns!

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