A Busca

Atravessou a rua e ela continuava a segui-lo. Pensou em parar, mas, ao contrário, aumentou a velocidade. Talvez fosse ele que a seguisse, já não sabia. Há quanto tempo estava em seu encalço? Horas, dias, anos? Ela não lhe era estranha. Os olhos desbotados o faziam lembrar de um futuro remoto. Poderia ser uma amiga. Falariam sobre a possibilidade que jamais tiveram de se conhecer. Perguntaria seu nome e ela responderia algo incongruente. Recordariam instantes indeléveis das caminhadas nunca realizadas. Lembrariam do momento que nunca houve. Mas apenas continuou andando. Às vezes, sentia a perna dela lancinante e, respeitosamente, diminuía o passo. Outras vezes, andava por ruas iguais para ter certeza de que estava perdido. Ambos estavam perdidos. Andariam sem destino. Viajantes solitários de um labirinto permanente. Entretanto, as casas ao redor envelheciam. As tintas das paredes adquiriram um tom mais claro. Os contornos desbotados proclamavam a independência da forma. Tudo parecia sumir. Um deserto. Uma folha em branco. Não obstante, ele entrou em um bar qualquer. A mulher já estava sentada na última cadeira. Olhou-o, como se olhasse a todos e, ao mesmo tempo, ninguém. “Você é o escritor?”, “Sim”, “Esse talvez seja o único propósito da perseguição. Você sabe o que tenho para lhe dizer?”, “Você veio me dizer que não existo”, respondeu rindo. Aproximou-se dela e sussurrou em seu ouvido: “E provavelmente você também não”, depois começou a rir cada vez mais alto, até que o riso e a mulher se misturassem, tornando-se uma coisa só.

Rodada 03 Invertida

Texto: R. Martson
Vídeo: Júlio Rodrigues, inspirado no texto.

13 comentários

  1. Gostei demais do texto e do vídeo. Achei o formato do vídeo original e envolvente. Preocupantes, tristes ou engraçadas, as situações perpassam pelos nossos sentimentos diários, atrás da inspiração. Parabéns Rodrigues e Martson. Abraços do Zamith

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  2. Caraaaalho! Bom pra caralho! Puta que pariu! Porra, quando li o texto não pensei nesse lance da busca pela mulher e dela por ele ser a relação do escritor com a inspiração. Não sei se o escritor pensou nisso. Se o fez, foi genial. Se não o fez, o videoartista foi genial em construir essa interpretação. E se fez, o videoartista também foi genial por ter pescado. E o vídeo passou perfeitamente essa interpretação, estando em consonância com a interpretação mais inteligente do texto.Um post, inteligentíssimo, de alto nível, e ainda por cima high tech. …rsrs… e com um vídeo no qual se nota uma preocupação com a produção.Abração.

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  3. Preciso pegar carona no comentário do Renato que me ajudou a entender minha admiração. Maravilhosa metáfora sobre a inspiração. Um post nada óbvio, realmente genial. Gostei da ousadia do video internacional e do texto com duplo sentido. Super interessante como ambos expressaram o tempo. Às vezes a arte me faz sentir felicidade. Como neste post.

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  4. Olha, o que Renato e Deborah sentiram, eu também sei. Só li primeiro o textoe pensei ser uma mulher. Vi o vídeo, fiquei confuso. Voltei ao texto e a ideia clareou. Era uma mulher, a musa da inspiração! 😀 Voltei ao vídeo feliz, ao ver Paris e a inspiração \”à tout court\”!Obrigado, senhores, pela ótim abertura da 3a Rodada! Esse texto e esse vídeo, juntos, são arte! \”Videotextoarte\”!

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  5. Fiquei extremamente feliz quando visitei o canal e me deparei com um belo texto e um excelente trabalho em videoarte. Poucas vezes a expressão artística que utiliza a tecnologia do vídeo em artes, conseguiu ser tão sensível. Sem receio eu afirmaria: emocionante. Parabéns a todos vocês. Obrigado por momento de real prazer.

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  6. Parabéns ao artista do vídeo por conseguir transformar em imagens (belíssimas, por sinal!) o belo texto. Só mesmo a arte para nos elevar acima dos problemas rotineiros.Que venham mais!!!!

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  7. Esse texto é realmente muito bom. Raras foram as vezes que vi uma texto tão maduro na Internet. Me lembrou Borges e kafka. O escritor está de parabéns.

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  8. finalmente consegui ver o vídeo do julio. excelente. o txt tbm. me emocionei com ambos pois andei por paris assim sozinho, só q eu é q seguia alkguém q não existia…parabéns os dois!

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