Todo dia de manhã eu saio com Heitor para comprarmos pão e tomarmos a dose diária do saudável sol da manhã. A médica disse que eu preciso pegar um pouco de sol por causa dos ossos de meu corpo, que já não são lá essas coisas. Heitor me acompanha por medo de ficar sozinho no apartamento, nestes tempos de violência.
Um dia, passamos por um casalzinho, desses que mal se conhecem e se prometem tudo o que conseguem imaginar. Um desses pares de irresponsáveis que suspira na ignorância das mágoas que virão a causar em seus supostos amados. E não satisfeitos em se ferirem, ainda alardeam aos quatro ventos o afeto erotizado dos jovens de hoje, repletos de beijos e abraços e risadas.
Tentei apertar o braço de Heitor para mostrá-lo a sem-vergonhice, para tê-lo cúmplice de minha revolta. Ele não sentiu o braço. Não enxergaria o casal, de qualquer forma. Pela distância, talvez visse apenas um borrão roxo, cor da farda do rapaz que, em vez de honrar a pátria, desonrava a moça.
Naquele dia, achei o pão tostado demais. Tampouco consegui tomar minha média com as 12 gotas habituais de adoçante. O almoço me fez mal, e até mesmo minha sesta foi intercalada por três vezes por despertares súbitos e ofegantes.
Naquele fim de tarde engomei todo o uniforme de Heitor, tentando lembrar dos vincos dos áureos tempos pré-reforma. Preguei as medalhas que já trouxe no peito, e mais alguns bottons que minha neta imprime pra mim com o rosto de atores antigos. Apenas para fazer número.
Tomei banho com um sabonete de aloés que comprei de uma vendedora do prédio. Sabonete líquido. Coisa chique.
Coloquei um vestido vermelho de tafetá que não via o lado de fora do armário desde minhas bodas de ouro, há uns 5 anos.
Heitor voltou da praça. Cobri seus olhos e levei-o ao quarto. “Veste”. Ele colocou a farda, sem questionar, enquanto me contava de sua vitória no jogo de damas. Que homem.
Deixei que me visse com o vestido. Pedi para que sentisse o cheiro em meus ombros, em meu colo. Pedi que me levasse até a esquina e me abraçasse, na frente de todos. “Agora? Deve estar cheio de bandidos na rua. Mas com essa farda, enfrento qualquer um deles”. Que homem.
Por pura inveja, beijei sua boca de maneira imoral na esquina. Por pura inveja, trouxe suas mãos e as deixei repousar em meu largo quadril. Por pura inveja, deitei-me em seu peito e disse que o amava muito.
Por pura inveja, tive um dia que nunca havia tido.
Rodada 02
Imagem: Guilherme Quaresma
Texto por: Saulo Aride
Lindo texto, comecei a ler meio de curioso mas acabei entrando na história. Muito bem escrito!A foto serviu mt bem como base, num ótimo exemplo de integração entre os autores 🙂
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Olha, ser lido pelo K_rio_K e elogiado não é pra qualquer um! 🙂 Parabéns, Saulo, ótimo texto para essa imagem instigante. Quando comecei a ler o texto voltei várias vezes à imagem e até agora me pergunto onde encontra-se a mão direito da moça… 🙂 E olha que tenho informações de que esta foto foi tirada em plena semana dita santa…
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Saulo, que texto… O conjunto da imagem com o texto ficou demais, muito dinâmico. É irresistível voltar os olhos à imagem e imaginar a senhora encarando os dois enamorados na rua. Obrigado, Saulo! :)Sobre a foto: foi feita, como adiantado pela Renato, durante a Semana Santa, no final de uma das procissões de Sevilha. Foi usada uma pequena Sony Cybershot W170, para tirar a foto de modo discreto. O uniforme do rapaz, da banda, é azul escuro, com as faixas com as cores da Coroa Espanhola; a moça, linda, de olhar apaixonado, com cabelo pintados de ruivo e sorriso aberto com as juras de amor de seu príncipe. Na foto original, o foco não estava no casal de idosos, que passava de braços dados à rua. Mas, no momento que, na imagem editada, o foco foi retirado de propósito, ele fazem parte do conjunto da imagem, como bem proposto pelo Saulo.E a mão direita… Acho que estava no bolso, pois em seguida ela a levantou e colocou no ombro do rapaz para beijá-lo.
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falar o que?DUKA!parabéns para a obra!!!!
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Guilherme, que belo instante roubado do amor romântico! E que charme de foto em P&B com detalhe colorido!Um conto bem bolado pelo Saulo, com final feliz e sensualidade tão inusitada. Emocionante!
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Por pura inveja.Só eu considerei a coisa anti-romantica?Que homem…..de quem é a foto?
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Que texto! Que homem! Genial, cara. Parabéns mesmo. Começar o dia com um texto desse levanta o astral de qualquer um!
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Felipe, o nome do autor da imagem vem sempre sobre ela. No caso, foi o Guilherme Quaresma. Obrigado pela sua visita, volte sempre. Não fossem os flickrs bloqueados no meu trabalho te visitaria.Saudações.Obs.: junte-se o horário do comentário do Marcelo Damm com a frase \”começar o dia\”, com o fato de hoje ser dia útil e conclui-se que o cidadão não é muito afeito ao labor, hehehehe.
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Obrigado pelos elogios! Estou cada vez mais feliz com esse projeto.Abraços a todos!
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MARAVILHOSO!!!! me arrepiei lendo esse texto que Perfeita essa imagem!! e que PERFEITA ESSA DUPLA!!Bom para …….!!!!Parabéns!!pena que só consegui ver hoje!!
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gostei.viagem, pensamentos, envolvimento.a galera da caneta manda muito bem, acompanhada de ótimos visuais.parabéns para a dupla
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Maravilha de imagem e de texto, uma inspiração com transformação total de atitude. Me lembrou Valsinha, do Chico e do Vinícius …
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Boa Imagem, caro xará. A ausência de foco valorizou o conjunto. E o detalhe em cores!(um quepe?)Ótimo texto Saulo, precisa trazer alguns para o Clube. Gostei sobretudo do final \”Por pura inveja…\”. Pois é, por pura inveja demorei a comentar…
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