Não me lembro exatamente do dia em que a conheci. Lembro menos ainda da época em que ainda não a conhecia. Um belo dia, olhei em volta e vi que ela estava comigo há tempos.
Ela me acompanhava em tudo. Quando ia para o trabalho, mal-humorado e sonolento, ela fazia questão de me ajeitar o paletó e entrar comigo corajosamente no trem lotado.
Ela buscava inutilmente me refrescar no calor torturante do Rio de Janeiro. Às vezes, sem que esperasse, sentia sopros frescos em volta de meu rosto, e tinha certeza de que vinham dela.
Em alguns dias, a rua parecia incomumente cheia, e ela me abraçava forte, me umedecendo a alma, como se gotas de suor brotassem para dentro do meu corpo e lavassem qualquer pico ou vale sentimental que se arriscasse a surgir.
Ela me fazia café, muito café, o melhor café do mundo, daqueles que preenchem uma vida inteira de respostas ao primeiro gole.
À noite ela primeiro me esfriava o corpo, para depois me cobrir com a mais quente das cobertas. E não me deixava dormir, enchendo minha cabeça de pensamentos difíceis, que me enchiam de orgulho durante a madrugada, mas nunca sobreviviam até a manhã seguinte.
Ela tinha aquele poder raro de provar erradas as evidências e garantir que eu não era mais um, eu era um. E só, sem cópias, sem similares. Um. Só.
Um dia ela foi embora. Na verdade, um dia olhei em volta e vi que ela não estava comigo há tempos. Sem escolha, toquei a vida.
Segui no trem, no trabalho, nas ruas lotadas. Percebi que, ao contrário do que ela me sussurrava, eu era mais um, sim. Todos somos iguais, metódicos, robóticos, escravos ou de seus instintos ou dos disfarces existencialistas que criamos para eles.
Conheci outras pessoas calcado por meus interesses de sobrevivência. Aproximei-me de mulheres com o intuito de fazer sexo com elas. Conversei com todos para absorver de suas falas tudo que me fosse útil. Fiz tudo que todos fazemos.
Sou um cara feliz. Não sinto falta dela.
Mas toda noite, antes de apagar as luzes e beijar a boca de minha mulher, olho bem em volta. Checo os armários, os cômodos, os sonhos. Porque sei que a solidão, ah, um dia ela há de voltar. E quando a perceber, ela já vai estar comigo há tempos.
Rodada 01
Imagem: Bruno do Amaral
Texto: Saulo Aride
Bruno e Saulo, que post sensacional vocês nos proporcionaram! Se restava alguma dúvida se valeu a pena o esforço por esse site, ela foi extinta por vocês. Obrigado por nos brindarem com esta tão bela foto e com um texto tão sensível e que me parece ter capto muitíssimo bem o espírito da imagem.Parabéns!
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Renato tem toda a razão… Neste segundo post, estava um pouco aflito, pensando no que poderia sair ao juntar foto e texto!Posso dizer que saiu melhor que a encomenda! Bruno, que foto maravilhosa, cheia de técnica e de sensibilidade! Saulo, que belo \”diálogo\” com o leitor a respeito daquela que, em certos momentos, ocupam a nossa vida e, quando sai, a gente não sente saudade! Parabéns aos dois e pelo conjunto da obra.
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Parabéns pelo texto Saulo! Sem dúvida ele completou mt bem a foto 🙂
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Meu caro Saulo, parabéns. Excelente trabalho em conjunto com a foto.
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Bruno e Saulo….Não dá para não ser repetitivo…\”que post sensacional vocês nos proporcionaram! Se restava alguma dúvida se valeu a pena o esforço por esse site, ela foi extinta por vocês. Obrigado por nos brindarem com esta tão bela foto e com um texto tão sensível e que me parece ter capto muitíssimo bem o espírito da imagem. – By Renato Amado\”
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Foto fantástica, texto genial. Estou orgulhoso por poder fazer parte deste time.
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Belíssimo conjunto. Fico feliz de estar fazendo parte de tudo isso.Sucesso!
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